Líderes globais adotam retórica militar e patriotismo exacerbado em discurso contra pandemia

Chefes de Estado e de governo recorrem a frases e gestos nacionalistas

Retórica militar, patriotismo exacerbado e a lembrança de glórias passadas. Na crise da Covid-19, diversos líderes mundiais têm buscado em entrevistas e pronunciamentos seu momento Winston Churchill.

O primeiro-ministro britânico da Segunda Guerra Mundial tornou-se icônico ao levantar o moral de um povo assustado com o avanço nazista, prometendo nunca se render.

Embora a oratória churchilliana seja insuperável, chefes de Estado e governo têm recorrido a frases e gestos grandiosos para demonstrar a gravidade do momento e pedir a união nacional.

Mesmo com o uso frequente das redes sociais, a TV segue sendo um veículo incontornável, com frequentes cadeias nacionais e coletivas.

Referências a guerra são comuns. Em pronunciamento à nação francesa em 16 de março, o presidente Emmanuel Macron usou sete vezes a expressão “estamos em guerra” em 21 minutos.

“Não lutamos contra um Exército ou contra outra nação. Mas o inimigo está lá, invisível, imperceptível, progredindo. E isso requer nossa mobilização geral”, disse, sentado em seu gabinete no Palácio do Eliseu.

Foi a segunda fala em quatro dias de Macron, sua forma preferida de se comunicar com os franceses. Os primeiros acordes da Marselhesa no início da transmissão ajudaram a compor o clima solene.

Na Alemanha, a chanceler Angela Merkel adotou o mesmo modelo, no dia 18.

Com a abóbada transparente do Reichstag (o Parlamento) ao fundo, sentada e com ar sóbrio, comparou o momento à luta contra o nazismo.

“Desde a reunificação, não, desde a Segunda Guerra Mundial, não houve outro desafio para nosso país que dependa tanto de nossa ação solidária e comum”, disse.

Os dois líderes europeus optaram por discursos caudalosos. Macron usou 2.621 palavras, e Merkel, 1.746.

“É uma guerra médica. Temos de vencer essa guerra. É muito importante.”

Donald Trump (EUA)

Como se comunica: deu 11 entrevistas coletivas desde o final de fevereiro

Xie Huanchi – 10.mar.20/Xinhua

“Vocês usam máscaras, então não posso ver seus rostos. Mas no meu coração vocês são as pessoas mais adoráveis.”

Xi Jinping (China)

Como se comunica: visitou Wuhan em 20 de março

Ludovic Marin -16.mar.20/AFP

“Esta é uma grande nação. Uma comunidade humana que tem por valores a solidariedade e a fraternidade.”

Emmanuel Macron (França)

Como se comunica: fez 2 pronunciamentos em rede nacional


Em comparação, os dois pronunciamentos na TV do presidente Jair Bolsonaro sobre o vírus foram raquíticos e frios: 203 palavras em 6 de março, quando chamou a doença de “grande desafio” e 221 no de 12 de março, quando falou apenas em preocupação. Em ambos, pediu para não haver pânico.

Um pronunciamento também foi o modo escolhido pelo primeiro-ministro italiano Giuseppe Conte para falar à nação em 4 de março, momento em que as mortes disparavam.

“Somos um país forte, um país que não se rende. É o nosso DNA”, disse.

Curiosamente, no país do Império Romano e do Renascimento, Conte buscou num evento relativamente recente um exemplo da fibra italiana.

“Vamos aplicar o modelo da Ponte Morandi, que nos ensina que quando nosso país é golpeado, sabe se levantar, formar um time e tornar-se mais forte”.

A referência é a uma construção em Gênova que desabou em 2018, causando a morte de 43 pessoas. Passado o choque da tragédia, houve um grande movimento nacional de solidariedade às famílias dos mortos e incentivos econômicos do governo para a reconstrução da ponte e da região onde ela ficava.

Expoentes da direita populista, Donald Trump (EUA) e Boris Johnson (Reino Unido) têm preferido o formato de entrevistas coletivas quase diárias, sempre ladeados por cientistas (mas que quase não abrem a boca).

Trump também investe pesado na metáfora bélica, e chegou a se declarar um “presidente em tempo de guerra” no dia 18 de março. Também não resistiu a uma referência à Segunda Guerra.

“Cada geração de americanos é chamado a fazer sacrifícios pelo bem da nação. Na Segunda Guerra, adolescentes e jovens se voluntariaram para lutar”, declarou.

Trump, contudo, tem tido momentos menos solenes, como fustigar a China chamando a Covid-19 de “vírus chinês” e bater boca com repórteres.

Já Boris tem repetido os eloquentes movimentos com braços e as súbitas alterações no tom de voz ao falar à nação, duas marcas registradas.

Para ele, a Covid-19 é um “inimigo invisível”, como classificou numa entrevista coletiva.

“Precisamos remover esse manto da invisibilidade [fazendo o gesto de uma capa sendo retirada] e identificar quem de nós o está carregando [esticando o braço e apontando para os jornalistas à sua frente]”.


Ian Vogler – 22.mar.20/Reuters

“Eu realmente acho, olhando para tudo, que nós podemos virar a maré nas próximas 12 semanas.”

Boris Johnson (Reino Unido)

Como se comunica: deu 8 entrevistas coletivas desde o início de março

Shan Yuqi – 18.mar.20/Xinhua

“Não estamos condenados a assistir à transmissão desse vírus passivamente”

Angela Merkel (Alemanha)

Como se comunica: fez um pronunciamento na TV em 19 de março

Remo Casilli – 11.mar.20/Reuters

“Estamos no mesmo barco. Quem está no timão tem o dever de manter a rota.”

Giuseppe Conte (Itália)

Como se comunica: fez 3 pronuncia-mentos na TV e deu 2 coletivas


Ninguém foi mais explícito no uso da simbologia militar, no entanto, que o chinês Xi Jinping, numa visita a Wuhan, epicentro da pandemia, em 20 de março.

Cercado por militares de farda, ele disse a profissionais da área de saúde por videoconferência que “podemos vencer essa guerra”. Em resposta, de máscaras e roupas protetoras, eles bateram continência para o líder chinês.

Para a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz, momentos de crise sempre trazem a figura do “grande líder” que fala para a nação.

“O chefe de Estado ou governo pode aparecer como o salvador nesse momento, a face da massa. A crise abre uma fresta de oportunidade para eles”, afirma.

Da mesma forma, é a hora em que o nacionalismo aflora, assim como o peso da história.

“O momento é favorável para esses nacionalismos exacerbados, e até medidas de exceção em alguns casos”, diz.

No Japão, o primeiro-ministro Shinzo Abe aproveitou o relativo sucesso no controle da doença para estocar dois adversários históricos, a China e a Coreia do Sul.

Em entrevista coletiva em 14 de março, lembrou que o número e infectados no país é menor do que nos dois vizinhos. Abe tem preferido se comunicar por meio de notas oficiais, após reuniões técnicas sobre o tema. Já são 22 desde o final de janeiro.

No mundo emergente, a retórica da guerra se repete, a começar por nossa vizinhança mais imediata, a Argentina.

“É uma luta contra um Exército invisível e que além disso era desconhecido. Uma luta muito desigual, porque não sabemos onde está o inimigo”, disse o presidente Alberto Fernández em entrevista coletiva em 16 de março.

Na África do Sul, o presidente Cyril Ramaphosa falou à nação em 15 de março pela TV e ​agarrou-se num evento histórico glorioso do país, a luta contra o apartheid. Terminou citando “We Shall Overcome” (vamos superar), hino da luta contra a segregação racial.

O vírus também levou o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, a fazer um raro pronunciamento.

Em 1min53s, ele basicamente agradeceu aos profissionais de saúde do país, um dos mais atingidos pela pandemia, e evitou pronunciar coronavírus ou Covid-19. Referiu-se apenas a “doença recente” e “vírus malicioso”.


Charly Triballeau – 14.mar.20/AFP

“Essa não é uma batalha solitária do Japão. O mundo todo está confrontando o coronavírus, nosso inimigo comum.”

Shinzo Abe (Japão)

Como se comunica: deu 4 entrevistas coletivas e soltou 22 notas à imprensa

Juan Mabromata – 19.mar.20/AFP

“Somos a Argentina. Um país unido em que cada um deve comprometer-se com os demais e todos com cada um, começando pelo Estado.”

Alberto Fernández (Argentina)

Como se comunica: 1 pronunciamento na TV e 1 entrevista coletiva

Pedro Ladeira – 18.mar.20/Folhapress

“É uma questão grave, mas não podemos entrar no campo da histeria.”

Jair Bolsonaro (Brasil)

Como se comunica: 2 pronunciamentos na TV e 2 entrevistas coletivas


VÁCUO NO PÚLPITO

No Brasil, a hesitação do presidente Jair Bolsonaro em admitir a gravidade da pandemia abriu caminho para que governadores ocupassem espaço.

O principal é o paulista João Doria, que vem promovendo entrevistas coletivas quase diárias no Palácio dos Bandeirantes.

De pé, com púlpito armado e ao lado de outras autoridades, ele comporta-se como mestre de cerimônias. Chega pontualmente e preocupa-se com detalhes como iluminação e enquadramento das câmeras antes do início.

No sábado (21), ele adotou a fórmula militar-nacionalista usada por líderes ao redor do mundo para tratar da doença.

“Sabemos que estamos numa guerra. E esta guerra deverá ser enfrentada com decisões corretas, rápidas e eficientes, mas sobretudo solidárias”, disse, na oitava entrevista do tipo desde o início da crise.

Em seguida, exortou a população a colocar uma bandeira do Brasil nas janelas. “Este é o momento de você amar o seu país. Amamos o Brasil. Ame o seu país”, disse, antes de anunciar medidas como o fechamento do comércio.

Já Wilson Witzel, do Rio, tem preferido dar entrevistas para veículos de imprensa, em que cobra de forma dura Bolsonaro, seu inimigo político.

Para a cientista política Maria Herminia Tavares, o protagonismo dos governadores é um caso único no cenário internacional, mas compreensível. “Estamos vivendo um presidencialismo sem presidente. A falta de empatia de Bolsonaro levou a essa situação”, afirmou.

uol/folhadesaopaulo

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