Especialistas alertam para risco de aparente calmaria antes da ‘tempestade perfeita’ do coronavírus em MS

Infectologista aponta ‘privilégio’ do Estado em registrar baixa incidência de Covid-19 e manter economia funcionando; fatores para o coronavírus se espalhar persistem ao lado de outras doenças

Às 10h desta segunda-feira (4), Mato Grosso do Sul contabilizava 274 casos de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, com 10 óbitos entre seus pouco mais de 2,7 milhões de habitantes. Números baixos, principalmente se comparados aos da pandemia em diversas partes do mundo –vide as dezenas de milhares de mortos na Europa e nos Estados Unidos– ou em cidades brasileiras como Manaus (AM), Recife (PE), Belém (PA) ou o Rio de Janeiro (RJ), que vivenciam o caos no sistema de Saúde para dar conta do volume de doentes. Esses mesmos dados, porém, parecer gerar um novo problema.

Ironicamente, os números modestos da Covid-19 no Estado, que seriam resultado de medidas precoces como o isolamento social e ações para fechamento de comércios, parecem trazer a sensação de que o “pior” já passou e que podemos baixar a guarda. Especialistas de diferentes áreas que analisam a situação optam pela cautela: se por um lado evitam cravar impactos futuros do coronavírus, têm em mãos dados suficientes para alertar que estamos longe de um porto seguro.

“O enfrentamento à doença se trata de um desafio multidisciplinar. Dessa maneira, como o novo coronavírus ainda avança sobre o território, fica complicado tecer qualquer perspectiva a respeito. As ciências trabalham, portanto, com dados e fatos, podendo, no máximo, efetuar prognósticos, projeções, mas sabendo da possibilidade dos erros e das generalizações, nesses casos, tendo em vista a dinâmica de transformações das múltiplas variáveis”.

O trecho acima consta nas conclusões do artigo “Difusão espacial do coronavírus: diálogo multidisciplinar”, assinado por um time de professores e pesquisadores da Uems (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), publicado pela versão brasileira do jornal francês Le Monde Diplomatique em 28 de abril. Nele, os especialistas fazem considerações desde o início do espalhamento do vírus a partir da cidade chinesa de Wuhan até Mato Grosso do Sul, seus efeitos sociais e econômicos e apontando os caminhos adotados no enfrentamento à doença.

Algumas conclusões afloram. Entre elas, a de que o vírus ainda circula de forma intensa e continua a bater às portas de Mato Grosso do Sul, já existindo a transmissão comunitária –sem relação com viagens ou pacientes específicos– em Campo Grande, que neste domingo (3) registrou sua terceira morte por Covid-19. Dois dias antes, na sexta-feira (1º de Maio, feriado do Dia do Trabalhador), a força-tarefa da Prefeitura da Capital abordou em um intervalo de 5 horas cerca de 600 pessoas que descumpriam orientações de distanciamento social e usufruíam da folga no período de quarentena como se não houvesse perigo.

‘Negacionismo’

“Se formos pela linha psicanalítica, ou ainda fazendo um diálogo com a Filosofia, observamos que muitas pessoas não estão acreditando que isso está ocorrendo. Há um certo negacionismo, as pessoas estão descrentes que isso possa vir a ocorrer com elas ou com algum membro da família. Muitas vezes isso ocorre em razão de as pessoas não terem um conhecimento adequado ou por parecer que a realidade está muito distante”, considerou o professor Paulo Fernando Jurado da Silva (Geografia), um dos autores do artigo, ao lado dos também professores Ao lado dos também professores Iris Bucker Froes Menin (médica infectologista), Cláudia Maria Sonaglio (economista), Mara Lúcia Falconi da Hora Bernardelli (geógrafa), Marcos Antonio Nunes de Araujo (enfermeiro), Edwaldo Henrique Bazana Barbosa (geógrafo) e Guilherme Espíndola Junior (geógrafo).

Paulo pondera que, geograficamente, a China –origem da Covid-19– está há mais de 16 mil quilômetros do Brasil. Relatos iniciais sobre a doença datam de meados novembro de 2019 em Wuhan. Neste domingo, cerca de 5 meses depois, o Brasil somou 101.147 casos e 7.025 mortes por Covid-19.

A maior parte dos casos e de mortos do Brasil está na Capital de São Paulo, a menos de 700 km da divisa com Mato Grosso do Sul. “De lá, irradiam-se voos e o transporte terrestre pelo país”, destacou ele, lembrando ainda da extensa divisa entre os dois Estados –Três Lagoas, com quase 60 casos e 3 mortes, é a segunda do Estado em volume de pacientes de Covid-19, à frente de cidades mais populosas, como Dourados.

‘Privilégio’

Especialistas alertam para risco de aparente calmaria antes da ‘tempestade perfeita’ do coronavírus em MS
Secretária-adjunta Christinne Maymone atualiza números da Covid-19 em MS nesta segunda-feira (4). (Reprodução)

O infectologista Júlio Croda, da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) e da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), reforça que não houve “circulação importante” do vírus no Estado, isto é, movimentações em quantidade suficiente para um maior espalhamento. O que significa, também, uma menor exposição da população até o momento. “Se não se adotar medidas, o vírus vai circular e o aumento de casos vai ser uma consequência”, explica.

Croda também afirma a impossibilidade de se realizar previsões exatas sobre como a doença vai avançar. “Isso depende das intervenções, não se pode bater o martelo”, disse.

Entre as intervenções, o isolamento social e fechamento do comércio ajudaram no chamado “achatamento da curva de contágio” –ilustrada em gráficos que apontam um avanço mais horizontal da linha que mostra o aumento no total de pacientes– e na prorrogação do “pico de contaminação”, a data estimada na qual será registrado um maior número de contaminados. De meados de abril, esse período já foi postergado para o início de maio e, agora, é aguardado para a segunda quinzena do mês ou o início de junho, datas que coincidem com o retorno das aulas nas escolas públicas.

“Se você achatou a curva, não tem pico”, disse o infectologista, apontando que tais previsões, além de não terem a divulgação recomendada por criarem expectativas que podem não vir a se cumprir, variam de acordo com diferentes medidas adotadas pelos órgãos públicos e da própria adesão da sociedade às mesmas –como na “equação”: maior distanciamento social = menor exposição + mais baixo risco de contaminação.

“Temos de agradecer que até agora não houve circulação importante do vírus e que temos, no momento, o privilégio de ter quase tudo funcionando, enquanto outras cidades estão pensando em lockdown”, afirmou Croda, lembrando da medida iniciada nesta semana em São Luís (MA) e já analisada em Manaus. Em São Paulo, a circulação em algumas avenidas será proibida.

Perigo e respostas

Reiterando apontamentos de seus colegas da Uems, o professor Paulo Jurado aponta que a Covid-19 “sempre foi uma doença grave” sobre a qual, a cada dia, os diagnósticos de febre, tosse e comprometimento dos pulmões ganham acréscimos como erupções cutâneas, acidentes vasculares, tromboses e embolia.

“Não é pelo fato de a gente estar vencendo a doença que ela vai deixar de ser grave”, afirmou, considerando que as pessoas estão “naturalizando a questão, como se isso se tornasse relativamente comum. ‘Isso já aconteceu’, ‘passou o medo’, ‘passou o pânico’. Mas, na verdade, temos de ter consciência de que a doença é um fato. Pessoas já morreram, profissionais de Saúde estão em uma luta intensa e as autoridades estão presentes. É uma guerra”, pontuou, reforçando, ainda, que há a busca por uma cura ou uma vacina. E adverte que, além da Covid-19, outras doenças também são motivo de preocupação.

“Alguns denominam esse momento de ‘tempestade perfeita’: você soma outros efeitos e cenários com internações e ocupações de leitos. Além de tudo, temos o problema da dengue e de outras doenças que não deixam de ocorrer em um país tropical e que afetam o número de leitos e atendimentos no sistema de Saúde”.

Especialistas alertam para risco de aparente calmaria antes da ‘tempestade perfeita’ do coronavírus em MS
O infectologista Júlio Croda durante coletiva enquanto ocupava cargo no Ministério da Saúde | Foto: Wilson Dias | Agência Brasil

Júlio Croda divide a situação entre aquilo que o poder público pode fazer e o comportamento que a população deve adotar. Para o primeiro, o monitoramento dos leitos de UTI disponíveis nas quatro macrorregiões do Estado –Campo Grande, Corumbá, Dourados e Três Lagoas– e a divulgação da taxa de ocupação (de 2,63%, perfazendo 4 dos 153 já disponíveis); e a ampliação da testagem para identificar mais casos de coronavírus a partir da retirada de um dos critérios para a realização dos exames (baseados em febre e sintomas respiratórios, sendo mantidos estes últimos).

“Depois que identificar o paciente, tem de isolar precocemente o caso e seus contatos domiciliares por 14 dias”, defendeu o infectologista, que sugere ainda a identificação, por meio de aplicativos para smartphones, dos locais nos quais a pessoa esteve e comunicação de outras que ali estiveram para emitir alertas sobre risco de contaminação pelo contato. “China, Cingapura, Japão e outros países da Ásia usaram ferramentas de tecnologia para controlar os surtos inicialmente”, explicou.

Por fim, Croda sustentou que, com a redução do isolamento social, que percentuais superiores a 70% da população adotem o uso de máscaras de pano, “que reduzem muito a taxa de contágio”, e considera que, a fim de que as pessoas sigam essas orientações, haja tanto doações do material de proteção como fiscalização com penalidades para quem as descumprir. Ele ainda defendeu o sistema de testes por drive-trhu por sua agilidade e defendeu a manutenção das barreiras sanitárias “para evitar a importação de novos casos”.

Em estudo

Os motivos de a doença se espalhar com mais facilidade em alguns locais do que outros ainda são estudados, havendo falta de informações da situação em diferentes países, nos quais há baixa testagem, alta subnotificação e poucos leitos hospitalares.

Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo cita fatores como demografia (desde a densidade à idade da população), cultura (padrões de higiene e saúde ou de comportamento social), ambiente (urbanização e clima, por exemplo) e a agilidade do governo em responder à pandemia como integrantes dos resultados, mas, ainda assim, sem respostas conclusivas. Fatores isolados, como concentrações sociais com portadores do coronavírus presentes ou alto índice de viajantes, estão entre condicionantes observados para o alastramento da doença de forma desigual em países com características semelhantes.

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